“Que Deus me proteja de gente má, cruel, invejosa. Mas, principalmente, de gente sem graça, sem sal, sem veneno, sem beleza e sem loucura.
“E tudo nele é tão legal. Vai da camisa até o nariz. E do jeito dele falar até o tempo todo que ele fica quieto. É tudo tão legal.
“A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos. A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro. A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos. Tudo bem. O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos. Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.
“Muitos pedem sinceridade. Mas nem todos são capazes de aguenta-las.
“Drama não me comove, me irrita.
“Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário. Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas. Se achar que precisa voltar, volte! Se perceber que precisa seguir, siga! Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-a. Se perder um amor, não se perca! Se o achar, segure-o!
“Nós, os humanos, temos essa horrível e maravilhosa capacidade de sofrer pelo que não existe. Somos neuróticos.
~ (Rubem Alves)
“Dê a quem você ama: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar.
“Está naquela idade inquieta e duvidosa, que não é dia claro e é já o alvorecer. Entreaberto botão, entrefechada rosa. Um pouco de menina e um pouco de mulher. Às vezes recatada, outras estouvadinha. Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor. Tem coisas de criança e modos de mocinha. Estuda o catecismo e lê versos de amor.
“Sua mãe já estaria na janela observando. Não como uma vigia, mas na esperança que acontecesse algo entre nós. Você riria ao vê-la de longe, eu brincaria chamando-a de sogra. Você, de certa forma, se espantaria com a brincadeira. Ficaria se remoendo, pensando se era ou não uma indireta. Eu notaria sua expressão confusa e aproveitaria o momento para dizer tudo que planejei nos últimos tempos. Mas cada segundo gasto pensando nas palavras certas a serem ditas, não adiantaria de nada. Pois tudo se resumiria àquelas três palavras que sempre nos renegamos a dizer.